Wednesday, March 01, 2006

Depois q o trem (aquele do primeiro post) foi embora:

-Devido a usuário na linha, os trens estão circulando com velocidade reduzida.
Aquela voz estridente me feria os ouvidos, me dava pânico, hora de trabalhar, aperto o botão do meu relógio.
Não estou criticando os suicidas, afinal, eles justificam meu emprego, mas uns dão muito trabalho, não entendo por que numa estação que fica embaixo de um viaduto de mais de 100 metros de altura o cara paga R$2,10 pra se matar, apesar q no caso de hoje foram só dois reais por que o infeliz tinha usado um bilhete múltiplo de 10.
Outra coisa que não podia entender era por que eles querendo abafar o caso soltavam aquelas mensagens nos trens, acho q era pra num ficar tudo à surdina, passaria uma impressão ruim, seria escândalo quando isso vazasse, então acho que avisavam só para dizer pros passageiros q às vezes um louco se mata no metrô, as pessoas num tem nem idéia do quanto isso é comum.
O trem já estava parado com o corpo do maldito feito paçoca em baixo, agora entra minha parte, o trabalho sujo, que nem mesmo as grades recém instaladas conseguiram atrapalhar.
Desci correndo a escada que leva da sala de controle da estação até os trilhos, por detrás pra ninguém ver, chegando no corredor escuro tudo que consigo ver são as roupas verdes, brilhantes de meus colegas, pego um balde com cal virgem, nós somas rápidos, quando desci já estavam fechando o corpo dentro de um saco, o trem já estava parado na estação havia 2 minutos, a habilidade dos companheiros que conseguiram nesse tempo tirar o corpo de um cara debaixo de mais de 1000 toneladas de aço é algo que até hoje me impressiona.
Minha parte é a mais simples, enquanto meus colegas correm com o corpo para a sala de controle, antes que o trem do sentido contrário chegue esmagando eles, eu jogava cal virgem e um produto químico secreto sobre a mancha de sangue, e depois esfregava freneticamente por 30 segundos, e quando meu relógio começa a apitar marcando que faltavam 20 segundos para o trem chegar pela plataforma oposta, corro pelos trilhos, que não se enganem, não são eletrificados a ponto de matar alguém.
Quando o estrondo agudo dos freios do trem irrompe a monotonia, e meu relógio grita os decorridos 3 minutos, estou na escada, logo, chego na sala, onde sobre uma mesa está o que não sei se posso chamar de corpo do infeliz.
Não sou legista, eles que cuidem do corpo, sentei em minha cadeira, tomando um café, que estava em uma xícara preta, bem ao lado os documentos ensangüentados de uma cara, que pelo pouco que reparei não devia ter mais que 20 anos, e relaxando, apreciei meu brilhante trabalho, quando após pouco mais de 3 minutos parado na estação, o trem deixou a plataforma, revelando sob ele um chão impecável, sem restos de gente, sem nenhuma notinha no jornal, nem sequer no obituário.